Com mais de 800 mil milhões de valor em bolsa, a Tesla supera a capitalização das nove maiores empresas automóveis do mundo combinadas, ainda que só represente 1% do total das vendas mundiais de veículos.

A produção mundial de automóveis abrandou e em 2020, Portugal teve uma quebra de 23,6% face a 2019. As vendas de veículos caíram 33,9%, mas os elétricos contrariaram a tendência com uma subida de 13,8%. A Tesla foi a empresa que mais beneficiou.

O impacto da Tesla na indústria automóvel não pode ser subestimado.

Empregava 48 000 pessoas em 2019 e, nos últimos cinco anos, vendeu um total de 1,29 milhões de veículos, 500 mil dos quais só em 2020.

A Tesla teve lucros pela primeira vez na sua história.

🚗 A empresa norte-americana de carros elétricos, encerrou 2020 com lucros líquidos de 721 milhões de dólares (€596 milhões de euros).

Nas últimas 52 semanas, a Tesla ganhou 649% (não é uma gralha) na valorização das ações na bolsa. Até agora, este ano 2021, subiu 20%.

Uma escalada que foi sendo alimentada de vários lados nos meses da pandemia:
mais carros vendidos – quase 500 mil num ano, sobretudo o Model 3, o mais acessível
da marca e resultados no verde em cinco trimestres consecutivos.

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Para a Tesla, a chegada ao S&P 500, as melhorias de recomendações de preços-alvo pelas casas de investimento, o processo de stocksplit no final de agosto (que dividiu cada ação em cinco) são outras razões apontadas pelo mercado para justificar o entusiasmo com as ações da empresa.

O facto de ser considerada uma empresa que fomenta as energias limpas permite-lhe fazer parte da composição da maioria dos ETF/Fundos de investimento que estão focados nas energias alternativas. E, claro, a entrada no índice S&P 500, permitiu aos gestores passivos comprar títulos da Tesla.

A este cenário somaram-se melhorias no processo produtivo e reforço da capacidade na unidade de Fremont, além da abertura de uma nova fábrica na China (maior mercado mundial para carros elétricos, que aguentou bem o impacto da pandemia e gerou um quinto das vendas da Tesla no terceiro trimestre).

A sua valorização é justificada pela ambição de dominar sozinha o futuro da mobilidade.

A Tesla tem uma tecnologia firme. Vai perturbar não só no fabrico de automóveis, mas também no transporte pessoal, na energia (graças à sua tecnologia nas baterias e energia solar), robótica, cuidados de saúde e muito mais.

As margens de exploração estavam próximas dos 7% nos primeiros nove meses de 2020, superior a qualquer grande rival – e em ascensão.

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Os veículos elétricos (evs) compõem agora cerca de 3% de todas as vendas de automóveis, dos quais Tesla é responsável por um quinto.

A Tesla tem pela frente dois grandes desafios: 

A empresa de referência automóvel no universo Musk, a Tesla não foi originalmente obra sua.

A fundação, em 2003, coube aos engenheiros de Silicon Valley, Martin Eberhard e Marc Tarpenning. Elon Musk entrou no ano seguinte e investiu 30 milhões de dólares na empresa que, em 2008, lançou o seu primeiro modelo, o Roadster, levando ao mercado um carro elétrico que combinava autonomia e velocidade inéditas, embora ao proibitivo preço de 100 mil dólares.

Hoje, a caminho das três fábricas, produz os modelos S, 3, X e Y, além do Cybertruck, do Roadster e do caminhão Tesla Semi.

Os dois grandes desafios de inovação da Tesla

🔎 1) Valorização da empresa:
Elon Musk investiu US $ 1,5 mil milhões dos preciosos US $ 19 mil milhões da Tesla, na criptomoeda bitcoin. No processo pode ter dificultado, como é que os investidores passam a avaliar adequadamente o valor justo de mercado da empresa, agora que vêm a uma piscina de bitcoins e criptomoedas.

A Tesla pretende aceitar, em breve, a bitcoin como um método de pagamento, segundo informação divulgada esta segunda-feira junto do regulador dos mercados dos Estados Unidos (SEC, na sigla original). 

“Em janeiro de 2021 atualizámos a nossa política de investimento, para nos dar mais flexibilidade e maximizar os retornos do nosso dinheiro que não precisa de manter uma liquidez operacional adequada.” 

“Como parte desta política, o investimento parte do nosso dinheiro em ativos de reserva alternativos. Nesta política, investimos um total de 1,5 mil milhões de dólares em criptomoedas”, refere o documento.

Tesla junta-se à MicroStrategy (NASDAQ:MSTR) ($MSTR) e à Square (NYSE:SQ) ($SQ) como as mais proeminentes empresas negociadas publicamente com bitcoins (BTC).

A Microstrategy e a Square investiram $1,3 mil milhões e $50 milhões em BTC, respetivamente.

CEO da MicroStrategy, Michael Saylor, disse que preferia ter um ativo de valorização volátil do que um ativo de desvalorização estável ao apresentar o caso aos tesoureiros empresariais para trocar dólares por Bitcoin nos livros da empresa. 

🔎 2) Redução de custos para ser uma empresa competitiva:
A China é o maior mercado comprador de veículos novos do mundo.

O governo tem espaço para ser bastante agressivo nos incentivos e “castigos” para adoção – até porque algumas cidades chinesas tiveram problemas terríveis de poluição atmosférica.

🔎 A Tesla está na China
🔎 A Volkswagen está na China
🔎 General Motors está na China

Como todos os fabricantes de automóveis, a Tesla quer produzir melhor e mais barato.

Para isso, foi a primeira a recorrer a uma gigantesca empresa chamada Gigapress. Assim, conseguem gerar linhas de produção 30% menores e reduzir a necessidade de robots de posicionamento e soldadura em 300 unidades, com a consequente redução de custos (cerca de 20% só em mão-de-obra, de acordo com a SAE.org).

🚘 As vendas de veículos elétricos, ainda mínimas nos Estados Unidos, estão a crescer na China e a Europa é o mercado de referência onde as vendas correram melhor em 2020.

O mercado está competitivo.

Das vendas à produção automóvel: Mundo Vs Portugal

Há uma expectativa de maior procura por veículos elétricos a nível mundial, fruto de políticas mais amigáveis dos governos, valorizando as empresas do setor.

Ao contrário do mercado global, as vendas de veículos 100% elétricos registaram uma
subida de 13,8% em 2020, atingindo as 7 830 unidades em Portugal.

A Tesla, apesar de ter caído cerca de 28%, mantém-se líder do mercado mundial e em Portugal.

carros electricos vendidos em portugal
Fonte: Exame

Portugal produziu um total de 264 mil automóveis em 2020, uma descida de 23,6% face ao ano anterior.

Mesmo assim, os resultados foram melhores do que se previa no segundo trimestre do ano quando as fábricas estiveram praticamente paradas. A AutoEuropa representa
72,7% da produção nacional
e dois terços das exportações de automóveis nacionais vão para apenas cinco países.

Em Portugal, apesar da queda anual, as fábricas de automóveis em Portugal conseguiram bater todos os recordes mensais de produção, especialmente em novembro. Nesse mês foram fabricados 35 454 veículos no País. Até à data, o recorde era de setembro de 2019, com 33 286 unidades produzidas.

producao nacional
Fonte: Exame

A previsão é que 1/3 de todos os carros vendidos globalmente serão elétricos até 2030

Um estudo publicado pelo jornal económico Financial Times,  da consultora Oliver Wyman, mostra que os custos de fabrico de um veículo elétrico (EV), são mais dispendiosos.

O estudo considera que o motor ou motores elétricos não têm o mesmo peso nos custos, de um motor de combustão, sendo que, os elétricos, também não possuem muitos dos componentes que funcionam em conjunto com o motor térmico.

Os números mostram que o veículo elétrico é mais caro de produzir não só pelos custos relativos às baterias, mas pelos componentes mais tradicionais.

Mesmo que Tesla não faça 20 milhões de carros elétricos por ano, até 2030, Elon Musk espera controlar 25-30% do mercado de carros elétricos até lá.

As grandes empresas arrastaram-se na eletrificação por uma
razão. As baterias eram dispendiosas, mas os preços de produção têm vindo a descer.

  • A General Motors ambiciona agora ter 30 modelos diferentes no mercado até 2025.
  • O Grupo Volkswagen pretende produzir 70 modelos diferentes até 2030.

Nos primeiros nove meses de 2020, a Renault-Nissan, Mitsubishi e Hyundai-Kia venderam mais na Europa do que Tesla.

carros mais vendidos em Portugal
Fonte: Exame

As vendas de automóveis ligeiros de passageiros começaram bem o ano,
mas as quedas, nos meses de março, abril e maio, atiraram o mercado para uma quebra de mais de 33,9%

A Tesla esteve perto de atingir o objetivo de entrega de 500.000 automóveis em 2020. Ergueu uma nova fábrica na China e vai abrir em breve, em linha, na Alemanha, assim como uma nova bateria “gigafactory” no Texas.

No meio do crise da covid-19 angariou com facilidade 12 mil milhões de dólares de capital, que lhe permite expandir-se à vontade.

Construir uma marca rapidamente e fazer carros elétricos da moda é uma verdadeira conquista. Hoje, as receitas de Tesla provêm da venda de carros.

As vendas ainda precisariam de aumentar sete vezes para igualar a Toyota. Mas a valorização da Tesla é superior.

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A Tesla tem o objetivo de produzir 20 milhões de carros elétricos até 2030.
A competição está a tornar-se mais feroz.

O aumento dos lucros em 2020 poderá tranquilizar investidores, mas vêm sobretudo da venda de créditos de carbono e a Tesla não é imune às forças tradicionais que regem o fabrico de automóveis.

Elon Musk: risco e inovação

O maior ativo da Tesla é o Elon Musk, um visionário que lidera viagens de foguetões a Marte, neurociência, produção de baterias em grande escala e outras tecnologias que estão a transformar o mercado.

Depois há o Elon Musk com tweets erráticos, como em 2018, quando publicou na rede social twitter, um tweet sobre a Tesla “tornando-se privada, financiamento garantido” a US $ 420 por ação, o que lhe custou o seu papel como presidente. 
Musk e a Tesla chegaram a um acordo sobre as acusações de fraude com a Comissão de Valores Mobiliários dos Estados Unidos, conforme a SEC reclamou – os tweets enganosos de Elon fizeram com que o preço das ações da Tesla subissem mais de 6%

O acordo incluiu $ 40 milhões em penalidades, divididos entre a empresa e Musk, e a remoção de Musk como presidente do concelho da Tesla. Os termos do negócio também pediam à Tesla para supervisionar as comunicações nas redes sociais do seu agora CEO.

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Outros dos episódios foi numa entrevista num podcast de Joe Rogan, Musk fumou mariajuana, depois de ter a certeza de que era legal na Califórnia, enquanto bebia uísque. Isso não agradou à NASA e à Força Aérea dos EUA. A NASA disse que iria analisar a segurança do local de trabalho na SpaceX e na Boeing Co., “incluindo a adesão a um ambiente livre de drogas”, enquanto as duas empresas se prepararam para levar astronautas à Estação Espacial Internacional. 

Com controvérsias ou não, o marketing do empresário, hoje com 49 anos, nascido na África do Sul, extravasou as redes sociais, a 6 de fevereiro de 2018.

Um foguetão deixava a Terra, levando para o espaço um carro com um manequim ao volante, vestido de astronauta.
O automóvel, um Tesla Roadster vermelho-cereja; o foguetão, um Falcon Heavy, desenvolvido pela norte-americana SpaceX.

Em 2020, Elon Musk, começou com uma fortuna avaliada em cerca de 27 mil milhões de dólares, que por pouco o deixava fora da lista dos 50 mais ricos do mundo.

Mas, no espaço de um ano, tornou-se detentor incontestado do lugar cimeiro dos mais ricos do planeta ao multiplicar esse valor por oito, atingindo uma fortuna avaliada pela Bloomberg em 203 mil milhões de dólares.

A mais recente contabilização levada a cabo pela EXAME, relativa a 2019, coloca os 25 maiores milionários portugueses com uma riqueza acumulada de perto de 19 mil milhões de euros (23 mil milhões de dólares), muito aquém dos 203 mil milhões do património de Musk.

A contribuir fortemente para este desempenho estiveram as ações da Tesla, empresa na qual Musk tem uma participação de 18%, além do generoso pacote de opções de compra de títulos, dependentes do alcance de objetivos da marca automóvel.

Elon Musk não tem receio de investir e de implementar as suas ideias.
Chegou a hipotecar as suas casas para manter a posição na Tesla, o que demonstra a sua capacidade de arriscar e de investir no que acredita.

A inovação está diretamente ligada ao sentido de oportunidade de criar soluções e
produtos que vão ao encontro das necessidades pelas quais o mercado e os consumidores mostram ter apetência. É preciso ter imaginação, ser disruptivo e estar num ambiente económico fértil.

Musk comunica os sucessos e os falhanços, o que contribui muito para a transparência que as pessoas procuram. Há uma estratégia de comunicação que cultiva e promove, que é o uso dos canais não tradicionais. Musk cria factos ou expectativas e consegue estar sempre nas notícias, já que está sempre predisposto a dar entrevistas e a produzir conteúdo.

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A capacidade de comunicar através do Twitter e de manter as relações com os média tradicionais significa que consegue atrair os investidores, que querem garantias reputacionais e nisso os média tradicionais são relevantes.
Os tweets têm um forte impacto na opinião pública e nas ações das empresas ou na criptomoeda, como é o caso da Dodgecoin ou da Bitcoin, que Elon Musk tem comunicado com frequência.

Muitas das startups que se transformaram em grandes empresas cresceram centradas no perfil e na personalidade do seu fundador. Não só porque isso é inerente a quase todas as startups, mas também porque o culto da personalidade do líder ajuda a promover a marca.

Alguns modelos Tesla estão a envelhecer e o sistema pseudo-autónomo também.

Em 2008 a Tesla esteve mesmo à beira da falência.

Seria salva por um empréstimo do governo norte-americano, na ordem dos 500 milhões de dólares, cujo montante devolveria em tempo recorde.
Em 2017 já tinha ultrapassado a capitalização bolsista de colossos históricos do
setor, como a Ford e a General Motors.

As vendas do Modelo S e do Modelo X estão a cair nas vendas e a empresa está perder quota de mercado na Europa (fonte: bloomberg).

As entregas dos Modelos S e X foram “anémicas” e “um pouco preocupantes, dadas as margens mais altas para esses carros”, escreveu Craig Irwin, analista da Roth Capital Partners, num relatório do sector automóvel.


O hype sobre os carros autónomos tem desgastado, já que o desenvolvimento de sistemas de auto-condução tem-se revelado complicado.

Se a Tesla vender uma quantidade suficiente do seu Modelo 3, o grande volume pode compensar a menor margem de lucro por veículo. E à medida que a promoção dos novos modelos de carros da empresa, são anunciados, a Tesla pode conquistar compradores que, de outra forma, nunca teriam considerado a marca.

Tesla é o fabricante de automóveis mais valioso do mundo.

Tesla existe há 17 anos, mas comparada com a média das empresas do sector, é um bébé.

A Tesla enviou cerca de 500.000 veículos em 2020, Stellantis oito milhões, tornando a Tesla quarto maior fabricante de automóveis do planeta.

A Stellantis é a uma multinacional, um grupo automóvel franco-italo-americano, sedeado nos Países Baixos, formado a partir da união da Fiat Chrysler Automobiles com a francesa PSA Group, após a conclusão de um acordo de fusão.

O grupo reúne 14 marcas: Abarth, Alfa Romeo, Chrysler, Citroën, Dodge, DS, Fiat, Jeep, Lancia, Maserati, Opel, Peugeot, Ram e Vauxhall.

Os volumes caíram para a maioria dos fabricantes de automóveis em 2020 – mas não para Tesla.

A Stellantis desceu 11%, ano até à data, em contraste com GM, mais 33%, e a Ford, mais 31%.

Os investidores começam a valorizar os investimentos em veiculos autónomos e EVs.

Quando a Tesla negoceia a um preço superior a toda a indústria automóvel, excluindo as que lidam em exclusivo com carros elétricos, o que vemos é um aumento extraordinário nas avaliações”, disse em entrevista à Yahoo! Finance. Vitali Kalesnik, partner na Research Affiliates.

Já em janeiro, a Morgan Stanley apontou a Tesla como “a escolhida” no setor, graças ao seu pessoal, à tecnologia, ao modelo de negócio e ao acesso ao capital, mas também por não estar condicionada às obrigações ambientais da concorrência tradicional, subindo o preço-alvo da ação em cinquenta por cento.

Musk chegou a reconhecer no ano passado que o preço dos títulos estava demasiado alto: “O mercado de ações é uma coisa estranha”.

Elon Musk é, para muitos, um ídolo que junta a genialidade e o dinheiro na prossecução de um bem maior. E apesar de não se conseguir perceber o que é construção e o que é absolutamente genuíno, a verdade é que poucos empresários podem dizer que os seus fãs constituem uma base muito maior do que a dos seus consumidores.